Um Galo de Raça

Quando eu e a minha companheira nos conhecemos, e começamos a formar a nossa própria família, iniciei uma convivência com a sua   família de origem, que já anda lá pelos quarenta e dois anos. Como sou um bom escutador de “causos” de família, fontes preciosas de muito do que escrevo, essa convivência tem me permitido conhecer um pouco da    história dessa família. Os dois grandes contadores de “causos” da família que eu sempre gostei de escutar foram:   o pai e o avô materno da minha companheira.

O meu primeiro encontro com o “Galo de Raça” aconteceu quando ele esteve, a trabalho, na UFV, Viçosa, MG, no ano de 1982. Eu era professor do COLUNI da UVF e a minha companheira cursava a sua graduação. Estávamos ainda no início do nosso relacionamento e convidamos o “Galo de Raça” para jantar   lá em casa. Foi servido a ele um delicioso frango com quiabo, acompanhado de angu, arroz, feijão, couve e cerveja gelada … é claro que também estava na mesa a minha timidez!  Tudo foi preparado pela melhor cozinheira que conheço: a sua filha e minha eterna companheira.

“Galo de Raça” foi o apelido que inventei nessa crônica para   homenagear o meu sogro Alberto Xavier Bartels, Betinho ou Santarém para familiares e amigos que, após uma longa batalha contra o Parkinson, veio a perecer nesse mês de dezembro.  O Galo, do “Galo de Raça”, vem do Atlético Mineiro, a sua maior paixão. Nesse longo tempo que acompanho futebol, nunca convivi com   um torcedor tão apaixonado (não fanático, pois sempre respeitou os torcedores dos outros times…  não fazia chacota com ninguém; mesmo nas vitórias mais históricas do Galo, ele extravasava toda a sua alegria sem caçoar o adversário) por um time como ele. Só para vocês terem uma ideia, quando ele morava em Londrina, PR, e havia jogos importantes do Galo em BH, ele viajava 1100 km para assistir ao jogo. Saia na sexta-feira após o trabalho e retornava no domingo após o jogo, às vezes, em seguidos finais de semana; uma viagem de 12 horas naqueles carros, “mal-arrumados”, dos anos 70 e 80.  Acredito que sua paixão pelo Galo era tanta que seu anjo da guarda sempre viajou com ele nessas loucas viagens…  e olha que era abusado na direção!  A concessão que não fazia, de jeito nenhum, era usar roupa azul, por razões óbvias: é cor do maior rival do Galo, o Cruzeiro.  Falando em roupa, a sua paixão pelo Galo também se manifestava na indumentária.  Desde que se aposentou e não mais precisou vestir-se com formalidades, Sr. Alberto só usou camisas do Galo. Tinha camisa para todas as ocasiões: do dia a dia, de passear, de frio, de verão, e de festas. Até na sua última viagem, a vigem para o infinito, ele levou junto uma camisa e uma bandeira do Galo.  

O Raça do “Galo de Raça”, que aqui está no sentido de determinação, foi a marca de sua personalidade que mais me chamou atenção. Pelo que me contou, foi   um moleque e dos bons, lá em Ipanema, MG, sua terra de coração…  Na infância fazia tantas estripulias que o pai, descendente de Alemão e enérgico, o enviou para estudar em um colégio interno de padres, na região do Caparaó…. pelo visto, o colégio não deu jeito na sua molecagem, pois ela continuou o acompanhando por toda a vida. No final dos anos 50, foi estudar na UFV, onde ganhou o apelido de Santarém; graduou-se em Agronomia e exerceu com muita dignidade a sua profissão, por mais de 50 anos; nunca quis acumular bens com o seu trabalho, como fizeram tantos da sua época. Teve uma relação saudável com o dinheiro, não era apegado a ele, e, tudo o que ganhava, era direcionado à educação dos filhos e ao bem-estar, seu e da família. Foi um pai enérgico, mas muito amoroso, eu mesmo presenciei vários  momentos de amor, grandeza e de desprendimento, que ele demonstrou.   

Sr. Alberto foi um homem alegre, espirituoso, festeiro como ninguém, e acima de tudo atencioso. Lembrava a data de aniversário de todos os amigos e familiares, estivesse onde estivesse, ele arranjava um jeito de enviar um cumprimento, até por telegrama, se fosse a opção. Mesmo nos últimos anos, quando a doença consumia o seu corpo e a sua voz enfraquecia, ele fazia questão de me cumprimentar pela passagem do meu aniversário, e, ainda, comentar alguma coisa sobre o Vasco, meu time de coração.  No meu aniversário desse ano, ele esteve presente; só que agora, de   alma, pois foi sepultado no dia em que completei sessenta e nove anos. Como não podia me cumprimentar com a sua própria voz, enviou uma mensagem do infinito para uma de suas filhas, durante a cerimônia do seu sepultamento, pedindo a ela que anunciasse aos presentes que eu completava mais um ciclo de vida. Foi o mais significante cumprimento de aniversário que eu recebi em toda a minha vida!

Esse foi o Sr. Aberto, Betinho, Santarém ou Galo de Raça, um homem que viveu, como ninguém, uma intensa vida.

Oscar Rezende

Vitória, primavera de 2020

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