
Maria das Dores (ela odiava esse nome), a nossa Dodora, era um pouco mais velha do que eu, três anos. Lá em casa foi assim: a cada três anos nascia um filho. São dezoito anos entre a irmã mais velha e o irmão mais novo.
Dodora carregava na alma o humor e a ironia. Não havia visita lá em casa que não passasse pelo seu crivo, principalmente parentes e amigos dos meus pais e da minha avó que chegavam para o almoço… Eles recebiam comentários irônicos da Dodora, o que nos obrigava a segurar o riso para não causar constrangimentos às visitas. O seu alvo preferido era o padre Amando.
Há tempos procuro um palavra que sirva de mote para falar de uma irmã. Hoje, sem mais nem menos, ela chegou: humor.
Na infância e na adolescência não me dava bem com ela, além de implicante ela gostava de me chamar de mulherzinha (ofensa mortal para um garoto do meu tempo) e me pegar, quando corria, para levar os terríveis beliscões de mamãe, quando fazíamos arte. Uma vez, já morando na cidade, engalfinhamos em uma briga que deu trabalho para separar. Recebemos um castigo dos bons, mas de nada adiantou, na primeira oportunidade continuamos a briga.
Ela também me salvou de uma tragédia: quando crianças, morando na fazenda, eu com sete anos e ela com dez, acompanhamos papai à procura da Amazonas, uma vaca da raça Gir, de chifre grande, que gostava de dar galope na gente. Papai desconfiava que a vaca havia parido no pasto e precisa ser levada para o curral, pois algum animal poderia comer o bezerro. Subimos o pasto, o sol rachava a nossa cabeça. Papai, com preguiça de ir até o topo, mandou que eu Dodora subíssemos mais um pouco e olhássemos do outro lado, para ver se a Amazonas estava lá. Não é que deu merda! A vaca estava logo na virada do morro, lambendo o bezerro que acabara de nascer. Ao nos ver, partiu para cima. Dodora saiu em disparada e eu atrás. Só que minhas pernas curtas não davam conta de correr mais que a vaca. Quando percebeu o meu sufoco, não titubeou: voltou, me agarrou pelo braço e me arrastou de morro abaixo, enquanto papai subia desesperado com um pedaço de pau, tentando conter a Amazonas. No final tudo deu certo, só alguns arranhões nas pernas, que o maldito mertiolate resolveu. Só não sei o que teria acontecido se ela tivesse me deixado para trás.
Quando adultos nos demos muito bem, estar com Dodora era motivo de alegria, o seu bom humor e a consideração com os irmãos era contagiante. Nos últimos tempos foi minha conselheira nas escritas e nas correções dos textos, era profunda conhecedora da língua portuguesa.
Dodora era a tia mais amada pelos sobrinhos… Além dos presentes, que não esquecia, fazia graça com seu humor escrachado, divertindo a molecada. Ela teve a vida conduzida pelo humor. Mesmo nos momentos de profunda tristeza acalmava sua alma debochando dos seus próprios problemas.
Nos deixou muito cedo, foi embora numa fria madrugada de inverno… foi fazer pândega em outra dimensão. Vez ou outro escuto a sua inconfundível gargalhada. Aí vem a saudade, muita saudade!
Que maravilha, me vejo em muitos dos seus textos…
Já estava com saudade deles!
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