O milagreiro de Urucânia

Ontem eu lia o excelente livro de Carlos Heitor Cony, Quase Memória. Num dos capítulos o autor conta a trama urdida junto com a mãe para que o pai viajasse a Urucânia, uma pequena cidade mineira perto de Ponte Nova, MG, onde havia um padre, padre Antônio, que fazia milagres, na tentativa de curá-lo de um cacoete. Coincidentemente, o meu avô paterno também fez essa viagem na mesma época, lá nos idos 1947.

Vovô Luizinho, era assim que o chamavam, sofria de uma doença degenerativa, o Mal de Parkinson que, ao longo da vida, o debilitou de tal forma que ao final ficou completamente entrevado. Infelizmente ainda hoje a doença continua debilitando muito gente. As conversas que escutava na infância davam conta que o gatilho que desencadeou a doença do meu avô foi uma tragédia familiar: meu pai e um primo, ainda crianças, atravessavam uma pinguela sobre o rio Calçado, na Fazenda Velha. Naquele tempo o rio era largo e fundo. Quando estavam no meio da travessia a tora que servia de pinguela rodou e os dois caíram. Meu pai conseguiu se segurar, mas o primo não, foi levado pela correnteza, e encontrado morto dois dias depois. Meu avô, que assistia tudo de longe, não conseguiu chegar a tempo de salvar o sobrinho, o que o deixou tão abalado que logo apareceram os primeiros sinais da doença, que se agravou com muita rapidez.  

A doença do meu avô interferiu muito na vida do meu pai. Como ele era o caçula e ainda não havia se casado, com o agravamento da doença do pai   foi obrigado a abandonar os estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro e voltar para a fazenda, ajudar à mãe a cuidar do pai, abandonando o sonho de também se tornar médico, como dois dos seus irmãos mais velhos.

A doença debilitava tanto o meu avô que já não havia nenhuma esperança de cura, pelo menos com os recursos da ciência. O jeito foi apelar para o sobrenatural. Corria pelo Brasil à notícia de que o padre Antônio, de Urucânia — à época uma pequena vila nos grotões de Minas Gerais, tão afeito as crenças religiosas — fazia milagres. Os jornais noticiavam que caravanas e mais caravanas de fiéis se deslocavam para lá, e que muitos, principalmente os aleijados (era assim que os jornais noticiavam) estavam conseguindo a graça do milagre. Vovó não teve dúvidas: chamou dois de seus filhos, o papai e o tio Luizão, o motorista mais experiente da família, arrumaram as bagagens, as matutagens, entraram no velho Ford 29, o bigodinho, do vovô e partiram os quatro para Urucânia.

Programaram a viagem para o mês de junho, no inverno, quando chovia pouco e não tinha barro nas estradas de chão e esburacadas daquela época, só que nessa época o frio era intenso e tinha  muita poeira. Saíram da Fazenda Velha às 4 horas da madrugada, o frio era intenso, e o velho fordeco, mesmo com capota de lona, as janelas, também de lona, arriadas, deixavam o frio entrar por todos os lados. Tiveram que viajar enrolado em cobertores. Seguiram para Bom Jesus, Itaperuna, Muriaé, depois em direção à Realeza. Chegaram já escurecendo, cansados e empoeirados até na alma. Pernoitaram em um hotel e seguiram na manhã seguinte em direção a Urucânia, perto de Ponte nova. Chegaram ao destino no final da tarde, e se hospedaram em uma casa de família, em péssimas condições, onde mal conseguiram dormir de tanto frio e pouca comida. Mas a fé era tanta que até esqueceram o sacrifico, menos o vovô que sentiu muito a viagem, ficou totalmente paralisado, sem quase conseguir se mexer. Na manhã seguinte, meu pai e o tio Luizão o levaram, no colo, para assistir à missa e receber benção do padre milagreiro.

Dois dias depois estavam de volta à fazenda, arrebentados pela dura viagem, mas com o coração cheio de esperanças de que o milagre acontecesse. Infelizmente não veio, e pouco tempo  depois o meu avô veio a falecer. Mesmo assim, a fé da minha vó continuou inabalada, apesar das dúvidas dos dois filhos, que não eram muito de Igreja.

Oscar Rezende

Buenos Aires, verão de 2025

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