Eu e o Coluni

Recentemente, estive na UFV (Universidade Federal de Viçosa), em Viçosa, MG, para participar da solenidade de sessenta anos do Cap-Coluni, anteriormente conhecido como Coluni (Colégio Universitário), um colégio de aplicação vinculado à UFV. O reencontro com meu passado foi um momento de grande emoção. Além de rever amigos que fizeram parte da minha trajetória profissional, conheci novas pessoas, que agora têm a responsabilidade de conduzir essa instituição, considerada uma das melhores escolas públicas do país.

Minha história com o Coluni começa em 1972, quando cheguei, vindo de Vitória, ES, para cursar o terceiro ano científico. Foi um período de muitas mudanças em minha vida, pois, apesar de ter saído de casa, no interior, um ano antes, ainda não havia me desligado completamente da família, já que, na capital capixaba, morava com minhas irmãs. Com cabelos grandes, calça pantalona, sandália de couro com solado de pneu e camiseta justa, que deixava parte da barriga à mostra — moda da época —, apresentei-me à instituição. Minha timidez, que às vezes resvalava para a antipatia, não me impediu de me comunicar com alguns colegas, poucos, é claro, mas me tornei grande amigo deles. Às duras penas, pois o ensino era muito avançado para os meus parcos conhecimentos, e lançando mão de muito estudo e de algumas colas (em grupo), venci aquele ano difícil.

Chega o ano de 1976. Já cursava Matemática e fui designado pelo departamento para ser monitor da disciplina no Coluni. Na época, senti-me muito orgulhoso, pois ser monitor naquela conceituada instituição conferia status entre os estudantes e ainda ajudava a arranjar namorada, o que de fato aconteceu. Naquele período, ouvi um ditado popular que dizia: “O bom professor se mede por sua capacidade enganatória.” Exercitei esse ditado intensamente, pois o que sabia ainda era muito pouco diante das necessidades dos excelentes alunos daquela época. Aos trancos e barrancos, fui aprendendo e tentando ensinar. Não sei se correspondi às expectativas, mas consegui terminar o ano sem pagar muitos micos.

Ainda nesse período, algumas mudanças começaram a acontecer no Coluni: novos professores foram contratados, seguindo uma carreira própria, para substituir monitores e professores universitários. A partir de então, o Coluni passou a construir uma identidade própria e a resistir às investidas de alguns dirigentes da universidade que queriam extinguir suas atividades.

Já formado, surgiu uma vaga de professor de Matemática no Coluni. Abandonei o mestrado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e assumi como professor efetivo. Assim começou a carreira profissional à qual me dediquei por mais de quarenta anos. Devo ao Coluni e aos seus professores e corpo técnico, meus queridos amigos, um dos períodos mais importantes da minha vida profissional.

Três anos mais tarde, o Coluni passou a incorporar os três anos do ensino médio, consolidando o modelo de instituição que permanece até hoje.

Durante os vinte primeiros anos de sua existência, o Coluni foi dirigido por professores do ensino superior, nomeados pelo reitor da universidade, seguindo a tradição da ditadura militar que ainda imperava no Brasil. Porém, com o bafo da democracia fungando no cangote dos militares, novas práticas começaram a ser implantadas no serviço público, e algumas chefias passaram a ser escolhidas pelos seus pares, como aconteceu com os próprios reitores. O Coluni também foi beneficiado pelos novos ventos da liberdade, e sua diretoria — Diretor e Vice-Diretor — passou a ser eleita pelos seus pares. Era o ano de 1985, quando fui escolhido, pelo voto direto, como o primeiro diretor eleito do Coluni.

Esse novo desafio trouxe-me muitos aprendizados, que carreguei ao longo de minha carreira acadêmica. Em 1988, por razões familiares, pedi transferência para a antiga ETEFES (Escola Técnica Federal do Espírito Santo), hoje Ifes, onde me aposentei.

O Coluni é, para mim, muito mais do que um conjunto arquitetônico; é um espaço metafísico que ensinou muito sobre viver e que evoca em mim memórias e sentimentos.

Obrigado por tudo, Coluni.

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2025

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