A lua cheia surgia majestosa por detrás da montanha. Os últimos raios de sol que iluminavam o alpendre foram substituídos pela luz amarela da lua. Era mais um belo anoitecer de outono! Sentada na cadeira de balanço, ela não sentia aquela beleza: seus olhos se perdiam no infinito… Estava presa em seu labirinto, em companhia das dores da alma. O tempo já não era o mensageiro de nada, havia parado! O hoje e o ontem eram iguais. As batidas do coração ressoavam descompassadas no estômago e na garganta. O sangue envenenado pela escassez de oxigênio corria em suas veias… Inspirar e expirar ecoavam um gemido de lamento, anunciando que os pulmões já não enchiam o suficiente.
Vozes se esforçavam para lhe mostrar a saída, mas não adiantou, pois havia perdido a esperança! Os profissionais que consultara eram compreensivos e educados, mas os caminhos teóricos que traçaram não passavam de receitas aprendidas dentro dos muros das faculdades, e de nada adiantavam. As vozes leigas eram contraditórias: tentavam ensinar-lhe uma saída que não conheciam e, por vezes, culpavam-na por ter-se perdido nesse labirinto.
Era a caçula de oito filhos, três irmãs e cinco irmãos. Se alguém lhe perguntasse como era viver com os oito irmãos na fazenda, ela se lembraria da infância, quando vivia à margem do que acontecia ao seu redor. A mãe, fixada em revistas de fofocas dos artistas do rádio, e com cheiro de acetona, de tanto limpar e pintar as unhas, não lhe dava atenção e cuidados… delegou-os à irmã mais velha — que reclamava do seu nascimento, culpando-a pelo excesso de tarefas que a mãe lhe impunha. O pai só se preocupava com a fazenda e, quando retornava para a casa, já era noite, não gostava de ser incomodado, principalmente quando lia os jornais ou ouvia o noticiário no rádio.
Na infância, ninguém a ajudou a combater os fantasmas que cresciam nos espaços escuros de sua alma. Ao contrário, davam-lhes vida. Diziam que ela era uma criança sem graça, que não sabia brincar como as outras. Corriam pelos quintais, jogavam queimada, brincavam de amarelinha, pique-esconde, jogavam belisca, e ela nunca participava, não se sentia atraída pelas travessuras das crianças. Era diferente e sozinha…, mas ninguém se importava com isso! Permanecia sentada, observando as brincadeiras.
A libertação veio ao aprender a ler, quando se encontrou com o seu grande companheiro de toda a vida: o livro! Viajou pelos lugares mais belos e distantes, em companhia de seus personagens. Fez amizade com eles, amou muitos e também odiou alguns. Mudou-se para as páginas dos livros e sentiu-se feliz. Só precisava dos olhos e da mente para abrir as portas desse mundo!
O preço a pagar por tanta liberdade foi cobrado pelo seu próprio corpo: precisava se alimentar, trabalhar, conversar, conviver com os outros, ou seja, viver em um mundo paralelo ao seu. Não teve forças para lidar com essa dicotomia dentro de uma mesma alma: perdeu-se em um labirinto.
Hoje, sentada no alpendre da fazenda, que fora reformada pelos irmãos, escutou ao longe a gritaria das novas crianças da família. O sol já havia se escondido, e a lua majestosa iluminava a paisagem da sua infância. Tirou do bolso do vestido o frasco de remédios, pegou o copo de água que estava sobre a mesa, ao lado da cadeira de balanço, e, de um só gole, engoliu todas as cápsulas. Recostou-se na cadeira de balanço, pegou o livro que estava em seu colo, abraçou-o junto ao peito, cerrou os olhos e esperou, calmamente, pelo sono que viria abrir as portas do seu labirinto.
Oscar Rezende
Buenos Aires, outono de 2025
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