As pequenas cidades do Brasil são o berço da vida — de todas as vidas. Por suas ruas caminham os doidos, os mendigos, as cartomantes, as benzedeiras, as fofoqueiras, os assassinos, as prostitutas, o padre, o professor, o juiz, o prefeito, o delegado, o médico… e por aí vai. A nossa pequena São José do Calçado, lá no sul capixaba, não é diferente. Essas vidas percorrem, em companhia do tempo, suas ruas, ladeiras e praças. Às vezes, é preciso reencontrar algumas dessas almas para que não sejam esquecidas. Hoje, a minha conversa é sobre um dos grandes personagens dessa história: o farmacêutico, o inesquecível Paulo Medina.
Neste duro período de doenças, fome, guerras, injustiças e do ódio que sufoca os corações humanos, há algo que ainda nos traz esperança: o SUS, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, que, apesar das muitas dificuldades, continua salvando vidas, mesmo sofrendo os maus-tratos da política ideológica. Mas nem sempre foi assim. A minha geração há de se lembrar de como era a saúde pública no Brasil. Era um verdadeiro Deus nos acuda!
Em Calçado, Deus até que nos acudiu. Amparados pelos ombros de três homens — o médico Dr. Aristides, o farmacêutico Paulo Medina e o enfermeiro Sizenando —, não fomos abandonados à própria sorte, principalmente os mais pobres, que não tinham recursos para custear os cuidados com a saúde. Mas hoje é dia de falar de um deles: Paulo Medina.
Paulo Medina foi muito mais do que um farmacêutico. Era um verdadeiro plantonista de pronto-socorro. Sua farmácia era o pronto-socorro calçadense. Lá chegavam os picados por cobra, os feridos por foice e machado, os que haviam pisado em pregos, os que sofriam com pernas inchadas e, principalmente, aqueles que carregavam as doenças da pobreza. Ou seja, todas as “desgraças” tinham um destino certo: a farmácia do seu Cruz, nome popular que homenageava seu pai, o velho farmacêutico.
Paulo Medina, com os dons que carregava — calma, elegância e competência técnica —, resolvia a maioria dos problemas de saúde que chegavam até ele, fosse na farmácia, fosse nos atendimentos domiciliares que realizava. Foi o braço direito e o braço esquerdo do velho médico, Dr. Aristides, outro homem que ocupa lugar cativo na história de São José do Calçado.
Depois de uma longa vida, vivida por quase 104 anos, Paulo Medina faleceu recentemente. Em seu velório, em São José do Calçado, viam-se, em sua maioria, cabelos brancos. Ao que parece, os jovens não têm dimensão da importância desse homem para a história do município. Não sei se estou enganado, mas tenho a sensação de que a nossa cidade está se esquecendo do próprio passado e de que o legado oral e oficial transmitido através das gerações está se perdendo.
Cabe ao poder público, por meio das secretarias de Cultura e Educação, promover ações que mantenham viva a memória dos fatos históricos e dos personagens que ajudaram a construir a identidade do município. Particularmente, senti falta de uma manifestação oficial do município em homenagem a uma pessoa tão importante quanto Paulo Medina, que, além de ter sido um grande humanista, exerceu o cargo de vereador por diversas legislaturas em Calçado, sem sequer pedir votos.
Homens como Paulo Medina permanecem vivos na memória daqueles que tiveram o privilégio de conviver com eles. Inspirado em sua grandeza e em seu exemplo de dedicação ao próximo, deixo aqui minha singela homenagem a esse homem com quem compartilhei um longo período da vida.
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2026
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