Fazenda Quatro Irmãos

Há alguns anos, a Fazenda Velha também era conhecida como Fazenda Quatro Irmãos, numa referência aos quatro filhos de Luiz Rezende e Maria Carlota, meus avós paternos: Aristides, Luís, Pedro e Oscar.

Nunca vi uma fotografia da sede da Fazenda Quatro Irmãos. Conservo apenas a imagem guardada na memória de uma criança, inevitavelmente moldada pelo tempo. Ficava no alto de um pequeno morro, à esquerda da estrada Calçado–Bom Jesus, logo após a encruzilhada que dá acesso à Usina São José.

Era um sobrado de planta quadrada, sem alpendre e com muitas janelas. Os quartos ocupavam o pavimento superior; no térreo, um amplo salão reunia a cozinha e a copa. A luz natural era escassa e, à noite, lampiões e lamparinas mal conseguiam vencer a escuridão.

Atrás da escada havia dois cômodos: um servia de despensa; o outro guardava ferramentas, arreios e utensílios da fazenda. Não havia banheiro dentro da casa. À noite, recorria-se ao penico. Do lado de fora, perto de uma moita de bananeiras, ficava uma pequena casinha de madeira, com piso de tábuas e um buraco no centro, destinada às necessidades fisiológicas.

A água vinha de uma nascente ao pé da mata. Corria por canaletas feitas de grossas varas de bambu-gigante, abertas ao meio, até um tanque de cimento, com duas cubas, ao lado da cozinha.

A fazenda era muito antiga, provavelmente construída em meados do século XIX, quando os colonizadores vindos de Minas Gerais chegaram à região. Foi adquirida pelos quatro irmãos na década de 1930, que a cederam a uma prima para morar ali até sua morte.

Na minha infância, meus pais costumavam visitar parentes nas diversas fazendas vizinhas, entre elas a Fazenda Quatro Irmãos. Nós, os filhos, íamos juntos. Eu achava aquelas visitas um suplício, pois era obrigado a permanecer em silêncio, ouvindo as conversas intermináveis dos adultos. Para fazer o tempo passar, observava as pessoas e me perdia nos próprios pensamentos. No fim, sempre havia café e doces. Alguns, especialmente os feitos com cravo-da-índia, eu detestava, mas aprendêramos que recusá-los seria falta de educação.

Das visitas à Fazenda Quatro Irmãos guardo duas lembranças.

A primeira é a da pinguela que encurtava o caminho: uma única tora de madeira lançada sobre o córrego, que para atravessar exigia muito equilíbrio.  Certa vez, minha irmã mais velha, Ângela, e uma amiga — creio que Lica — atravessavam a pinguela quando a tora girou. Lica caiu na água. Felizmente, o córrego era raso.

A segunda foi meu primeiro encontro com a doença e a morte. A prima dos quatro irmãos sofria de um câncer abdominal, embora, na roça, todos dissessem apenas que ela estava com barriga-d’água.

Meu tio Aristides, o mais velho dos irmãos e médico, veio examiná-la. Depois do almoço em nossa casa, levou-me consigo para abrir as porteiras da fazenda. Eu adorava acompanhá-lo em seu velho jipe de capota de aço nas visitas aos doentes da região. Enquanto ele fazia as consultas, eu esperava no carro. Muitas vezes, o pagamento vinha em galinhas, porcos, sacas de café ou outros produtos da roça. Dinheiro era raro.

Naquele dia, porém, entrei com ele no quarto.

A cena nunca saiu da minha memória. A doente estava deitada na cama, em um ambiente escuro, impregnado por um odor acre de doença e medicamentos. O rosto revelava um sofrimento que eu jamais havia presenciado. A barriga erguia o cobertor, enquanto a pele flácida e os olhos profundamente amarelados anunciavam a gravidade da doença. Assustado, saí para o terreiro. Quando meu tio terminou a consulta, corri para abrir a porteira, subi no jipe e seguimos de volta para casa. Eu queria apenas deixar para trás, o mais rápido possível, aquela cena assustadora para uma criança.

Assim que a prima da família faleceu, o marido abandonou a fazenda. A partir de então, ela não voltou a abrigar moradores. Aos poucos, o tempo foi derrubando sua estrutura e levando consigo os vestígios das vidas que ali passaram. Hoje, não existe sequer sinal de suas ruínas. A Fazenda Quatro Irmãos sobrevive apenas na memória daqueles que a viram de pé.

Oscar Rezende
Vitória, inverno de 2026

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑