Melhor amiga

Ontem comemoramos os setenta anos de Carlota. Foi uma ode a amizade.

É complicado dizer que alguém é o nosso melhor amigo. Talvez o mais prudente seja não estabelecer esse tipo de classificação, até porque cada amigo acaricia um pedacinho da nossa alma com o seu jeito de ser. Eu, porém, talvez seja uma exceção. Consigo identificar minha melhor amiga: Carlota. E, para completar, ela é minha irmã.

Desde que Carlota nasceu — embora não pareça, sou mais velho — nossas vidas se misturaram.

Na infância, entre uma briga e outra, aproveitei-me da sua amizade em benefício próprio. Carlota tornou-se coadjuvante de um dos meus maiores fetiches infantis: o automóvel. Nunca tive um carrinho de brinquedo, mas isso não me aborrecia. A criatividade da roça resolvia o problema. Eu pegava uma tampa de panela, saía correndo pelas redondezas usando-a como volante e fazia, com a boca, o ronco de um motor V8. Carlota era a passageira. Com uma das mãos agarrada à minha camisa e a outra abraçando um sabugo de milho — o seu bebê —, corria ao meu lado.

A maior aventura dessas viagens aconteceu perto da Usina São José. Demos de cara com uma cobra atravessando calmamente a estrada. Minha “valentia de macho” entrou logo em ação: empurrei Carlota para trás para protegê-la, apanhei uma pedra e a atirei contra a cobra. Claro que errei. O animal enrolou-se e permaneceu no meio da estrada, ao lado da pedra. Sem desistir do meu heroísmo, mandei Carlota buscar a pedra para que eu tentasse novamente. Repetimos a cena várias vezes. Não acertei a cobra, mas, felizmente, ela também não resolveu atacar minha irmã.

Outra prova da nossa amizade é que eu era um “cagão de dar gosto”. Morria de medo de ir sozinho ao banheiro durante a madrugada. Nessas horas, sempre podia contar com minha melhor amiga. Eu acordava Carlota e ela, cambaleando de sono, ia me fazer companhia.

Na adolescência, acabamos nos afastando um pouco. Ela tinha a sua turma; eu, a minha. Ainda assim, nossa convivência continuou intensa, sobretudo pela rivalidade. Carlota deixou de ser minha coadjuvante para se tornar minha principal adversária. Adorava me provocar, chamando-me de “mulherzinha”.

Certa vez, só não a matei por intervenção do meu pai. Eu havia ganhado um tênis All Star  de cano longo e, durante mais uma de nossas discussões, ela repetiu o inevitável “mulherzinha”. Parti para cima dela, mas Carlota escapou escada abaixo e foi se refugiar no quintal, de onde continuava a me provocar. Lá de cima, tirei um dos tênis, mirei na sua cabeça e arremessei. Errei de novo. Pelo visto, minha pontaria continuava a mesma da época da cobra. Ela apanhou o tênis e, com um sorriso cínico, passou-o numa poça de lama. Quando eu já me preparava para descer e resolver a questão “na porrada”, papai interferiu.

Apesar das nossas turras de adolescência, a amizade sempre falou mais alto. Cheguei até a apanhar na rua por defendê-la do assédio de um babaca, em frente ao Aeroclube, em Bom Jesus do Itabapoana.

Na vida adulta, nossa amizade se fortaleceu ainda mais. Comemoramos juntos o nascimento dos nossos filhos e unimos nossas famílias numa única irmandade.

Mas por que Carlota é a minha melhor amiga? Porque, desde a infância, nunca caminhamos sozinhos. Dividimos medos, alegrias, escolhas e dificuldades. Em nenhum momento da vida precisei fingir ser quem eu não era diante dela. Acho que é isso que define uma grande amizade.

Hoje, já velhos (não gosto da expressão “melhor idade”; acho-a muito piegas), nossa amizade adquiriu a serenidade que só o tempo é capaz de ensinar. Carlota sempre evitou resolver os problemas no calor das emoções. Com calma e uma força interior admirável, observa os conflitos à distância, permitindo que os ânimos se acalmem antes de agir. Sempre procuro imitar sua sabedoria, embora nem sempre consiga.

Na família, Carlota é hoje querida por irmãos, filhos, netos, sobrinhos e sobrinhos-netos. Tornou-se uma luz que ilumina o coração de todos.

Parabéns, minha melhor amiga e irmã. E  que o tempo tenha a delicadeza de caminhar um pouquinho mais devagar, para que eu possa desfrutar da sua companhia por muitos anos.

Parabéns, Carlota. Muito obrigado por ser minha melhor amiga.

Um beijo no coração, do seu irmão,

Caise

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2026

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