A jornada das primeiras letras

O Rio Calçado corria lentamente nos fundos da fazenda, formando o remanso onde as traíras vinham apreciar as sementes da figueira. Nas manhãs de inverno, a névoa que se levantava de suas águas límpidas inundava as margens, formando uma nuvem branca que cobria o verde. Nas manhãs de verão, após uma noite de violenta tempestade, o rio se transformava. Com uma bravura assustadora, suas águas barrentas carregavam troncos de árvores, animais mortos e todo tipo de entulho, transbordando pelas margens e cobrindo de barro todo o verde.

Às 6h, eu vestia minha calça comprida cáqui, uma camisa também cáqui, um pouco mais clara, calçava os sapatos pretos e me agasalhava todo quando o frio era cortante. Já na jardineira de 25 lugares, que me levava a Calçado para cursar o 4º ano primário no Ginásio de Calçado, sentava-me na primeira cadeira para observar, com curiosidade, os movimentos do motorista na condução do veículo. Minha atenção se voltava especialmente para as mudanças no ronco do motor quando ele passava as marchas do velho Chevrolet 1948. Eu já conhecia aqueles sons, pois, nas minhas brincadeiras de infância, os reproduzia com a boca enquanto dirigia o meu V8 pelas redondezas da fazenda.

Às 7h, já estava sentado numa carteira individual. Na Escola Singular da Fazenda Velha, onde estudara as três primeiras séries, as carteiras eram para dois alunos. Às 7h05, ficávamos todos de pé para a entrada da professora Maria Amélia, minha prima. Maria Amélia era uma professora enérgica, mas muito justa. Eu gostava muito de suas aulas. Além da voz bonita, ela tinha um jeito especial de ensinar.

Às 11h, saía da escola e corria para pegar a jardineira das 11h30, que me levava de volta para casa. Chegava com a barriga roncando de fome, pegava meu prato, que já estava pronto no canto do fogão a lenha, e engolia a comida com gosto.

Duas vezes por semana, a rotina mudava. Às 13h, eu tinha aulas preparatórias para a prova de admissão ao curso ginasial, aplicada no final do período letivo. Nesses dias, o almoço era na casa da tia Elcida. Ela fazia o melhor bife de carne moída que comi em toda a minha vida. Nunca ficava satisfeito com a quantidade que me serviam, mas aprendera que, na casa dos outros, não se podia repetir.

Nos períodos de chuva, a jornada se complicava. Se a velha jardineira, mesmo com correntes nas rodas traseiras, não conseguisse vencer o barro acumulado na estrada, o jeito era percorrer a pé a légua que separava a fazenda da cidade. Tirávamos os sapatos, enfiávamos no embornal e seguíamos amassando barro. Era mais de uma hora de caminhada, escorregando pela estrada. Chegávamos em casa mortos de cansaço e com uma fome danada e, às vezes, ainda éramos obrigados a ouvir as gracinhas de mamãe:

“Tá com fome? Vai na Rua do João Gomes, mata um homem e come.”

Passado um ano daquela jornada, meus pais entenderam que já não era mais possível continuarmos morando na fazenda. Mudamos para a cidade.

E assim, entre jardineiras, estradas de barro e cadernos escolares, começava a minha jornada pelo mundo das letras.

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2026

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